Práticas sexuais: itinerários, possibilidades & limites de pesquisa

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Páginas: 297

Tamanho: 16 x 23cm

Envio após: 27/12/2019

Em um ensaio publicado pela primeira vez no jornal Ponte, em 1949, a escritora italiana Natalia Ginzburg dedicou-se a escrever sobre o que tornava particular seu ofício como escritora em um mundo atravessado pela guerra e pelos efeitos tenebrosos do horror. O foco do seu exercício, contudo, não estava voltado para as problemáticas complexas da geopolítica do Ocidente e as partições do governo. Il mio mestiere, traduzido ao português como “Meu Ofício” e posteriormente publicado na coletânea de Le Piccole Virtù (As Pequenas Virtudes) é um ensaio sobre a dimensão simultaneamente miúda e grandiosa da questão sobre porquê e como, afinal, alguém se dedica a escrever. Trata-se de um ensaio sobre a minúcia e o prazer, sobre as potências de crítica e imaginação, de perceber a vida como um laboratório de experimentações e o texto uma forma de tornar o ato de olhar e o resultado da observação como uma coisa produzida pela continuidade intensiva.

Supondo que é possível concordarmos que há no passado vivido e no passado sonhado algo de plausível para retomarmos uma reflexão sobre presente e futuro, nos permitam começar essa apresentação com uma breve passagem sobre as considerações de Natalia a respeito do seu ofício. A certa altura, quando refletia sobre sua produção criativa marcado pelo interesse em formas muito minúsculas, e detalhistas sobre personagens do cotidiano, ela nota: “Naquele gosto que eu tinha de vasculhar detalhes miúdos havia certa malignidade de minha parte, um interesse ávido e mesquinho pelas coisas pequenas, pequenas como pulgas, era uma obstinada e tagarela procura por pulgas de minha parte”.

As preocupações de Natalia Ginzburg com a pertinência de sua obsessão com o detalhe e a miudeza das coisas, que observava como parte do exercício criativo de contar histórias de muitas maneiras, atravessam o problema central sobre o qual este livro se interessa. Ao lidarmos com o sexo como um leitmotiv para a reconstituição de configurações sociais complexas usualmente nos atemos às pulgas, ou mais que isso, em um exercício de abstração por vezes não refletido, temos por hábito tratar pulgas como elefantes e conferir às minúcias e aos detalhes uma importância sem igual. Em alguma medida, estamos também presos àquilo que criticamos como a verdade do sexo, ou seja, a sua possibilidade de dizer e expor algo genuinamente revelador. E de fato, podemos postular que nos universos onde o sexo habita e é produzido existe algo revelador, às vezes sobre as pessoas e outros modos de existência com as quais interagimos, às vezes sobre nós.

No projeto de construção de uma história do dispositivo da sexualidade como modo de gerir corpos e populações, Foucault introduziu o argumento de que, ao menos no mundo ocidental que era possível desenhar a partir dos documentos que analisou, a hipótese de que não era possível falar sobre o sexo se realizava através de seu oposto recursivo. A ideia de uma sociedade repressiva, que interditava as possibilidades de falar sobre sexo, era uma hipótese refutável. Em seu aspecto mais efetivo, o que os grandes centros metropolitanos europeus e seus modos de vida comprometidos com o decoro e a observância religiosa faziam era disciplinar os espaços, momentos e interlocutores de um discurso, sempre abundante, sobre aquilo que diziam ser interdito ou reprimido. Ainda que a reflexão foucaultiana apresente problemas, ela deixa duas questões que merecem ser retomadas aqui: as formas do conhecimento e as formas do poder.

Tomemos como hipótese que sexo signifique a dimensão corporificada e extensiva de entender, colonizar e organizar o mundo a partir de aproximações e distanciamentos entre formas reconhecidas como de semelhança e de diferença. Se essa hipótese se mostra plausível em um contexto como nosso, então ao olharmos para o sexo em suas múltiplas camadas de significação estamos criando e olhando para formas de conhecer e de gerir o mundo a partir da identificação do que é tributável no tempo e no espaço àqueles que tomamos como semelhantes e diferentes a quem enuncia. Trata-se assim de um problema tanto de epistemologia e política quanto de política epistemológica, ou seja, quais agendas tornam possíveis que o sexo seja pautado como fenômeno útil de reflexão?

A questão afinal é: como produzir uma epistemologia onde o sexo possa ser considerado em sua complexidade? Como dialogar com políticas epistemológicas e modos de habitar o mundo caracterizados por uma intensa ambivalência entre modos de manusear nas práticas e discursos os conteúdos disponíveis para pensar o que seja o sexo e sua extensão sobre a vida?

Uma reflexão atenta a tais questões pautaria uma primeira pergunta, de ordem eminentemente conceitual: afinal, o que é esse objeto ou fenômeno de contornos um tanto quanto obscuros que chamamos ‘sexo’? A resposta não pode ser breve ou simplista dada a magnitude do problema. Melhor seria, na medida do possível, repassar a questão para aquelas pessoas ou lugares que, na condição de analistas da vida social, elegemos como fonte de interlocução. Ao repassar a questão podemos pensar junto com eles, ou a partir deles, sobre como o sexo é concebido em determinados contextos e significados em condições específicas. Nesses termos, qualquer resposta seria minimamente mais plausível do que o remendo que propomos aqui.

Longe de antecipar ou criar um modelo no qual seja possível encaixar ou localizar o que na fala dos outros é refratário de nossos próprios pressupostos, nos permitam uma alternativa preliminar, e, nesse sentido, também precária para a questão. Tomemos o sexo a partir de três eixos: como linguagem para formulação de princípios de organização social; como sistema de escritura e dispositivo de colonização que confere inteligibilidade e prerrogativa sobre corpos e pessoas; e por fim, como técnica e tecnologia de experiência entre modos de existência. Com isso queremos dizer que sexo deve ser pensado como um arranjo complexo, corporificado em múltiplos níveis, e que coloca em relação pessoas, objetos, valores e significados que são experimentados e interpelados nos modos de construir mundos habitáveis.

Em síntese, falar sobre sexo é falar sobre noções de pessoa, sobre modos de organização das potências produtivas e competências reprodutivas, sobre formas de trabalho, sobre princípios de gestão da diferença no social; sobre as categorias que organizam corpos e lhes localiza num espectro extenso da economia do prestígio e dos privilégios, do desejo ou abjeção. Não à toa, Foucault argumentava, já há mais de cinco décadas, em favor das relações de continuidade intensiva entre formas de gestão das possibilidades (re)produtivas através do sexo e os mecanismos de distribuição e exercício do poder e controle de populações. Em sua expressão histórica e empírica esse interesse por formas de controle de vida - e não apenas da morte em seu aspecto militar e espetacular - foi traduzido na tentativa controle de certos grupos e práticas corporais genitalizadas, nas campanhas de planejamento familiar, na eugenia e engenharia genética, na relação entre o trabalho doméstico e o trabalho industrial, entre outras.

Ao tomarmos como plausível entender o sexo nesses termos nossa expectativa é de que seja possível também o desenvolvimento de mecanismos descritivos e analíticos que considerem as formas complexas pelas quais, em diferentes materiais e junto a diversas coletividades, são manejados e constituídos repertórios que dão lugar e sentido ao que seja sexo. A questão é, inclusive, de abrir mão de certas possibilidades interpretativas, recursos apelativos e tecnologias de nomeação quando a matéria do sexo é organizada como efeito de outros termos colocados como visíveis e o ‘sexo’, ou o quase-sexo, ocultado. Só nesses termos é possível extrair ou reconhecer as potências da noção de reprodução masculina para os Iatmul do Rio Sepik, em Papua Nova Guiné, das relações das mulheres ribeirinhas no norte paraense com o sangue menstrual, dos movimentos organizados de pessoas intersexo em San Francisco, das fotografias de nu feitas por Mapplethorpe expostas em um museu em Beijing, das mulheres virgens que optaram por engravidar com auxílio de novas tecnologias reprodutivas em Londres ou do fluxo de trabalho generificado no Vale do Silício.

A presente coletânea se interessa sobremaneira por aquilo que definimos a princípio como “práticas sexuais”, ou seja, as formas de gestão de corpos, prazeres e discursos que dizem respeito à constituição de acontecimentos onde noções de sexo operam como elemento mediador, interesse ou elemento de desestabilização. Pensar o sexo como prática implica, entre outras coisas, tomar sua dimensão performativa e produtora de economias e linguagens que atravessam e são atravessadas por elementos da vida social em sua realização extensiva e intensiva. Contudo, mais uma vez um problema emerge. Se é verdadeira a concepção ocidental de que o sexo está alocado em um registro da intimidade, do privado, como produzir instrumentos metodológicos de descrição e análise a partir dos quais seja possível interpelá-lo? Mais ainda, se o sexo como prática é reservado a grupos e coletividades constituídos a partir de pequenas unidades, qual a relevância em estudar as formas minúsculas que esses arranjos propiciam para entender configurações mais amplas, numerosas e conflituais?

Se é possível oferecer respostas precárias e preliminares sobre a dimensão conceitual trazida pelo sexo, talvez o mesmo não seja lícito quando nos defrontamos com a dimensão metodológica imposta por investigações sobre ou em contextos de práticas sexuais. E isso não apenas porque a produção de um manual mais atrapalharia que ajudaria, mas também porque, em virtude dessa dimensão prévia, sempre a ser confirmada ou desmentida sobre os espaços simbólicos nos quais o sexo é alocado, o sexo está sempre em vias de movimentar-se, eventualmente de desfazer-se e transformar-se. Transformação aqui implica a constituição de redes complexa nas quais continuidade e descontinuidade, semelhante, divergente e diferente, são tensionados e se reorganizam em função de projetos, interesses, agenciamentos e formas táticas de manejo do desejo e do poder. Em última instância, é preciso considerar também a dimensão interacional e relacional que constitui a aproximação entre aqueles que investigam e o material ou fenômeno sobre o qual se dedicam. Tratar o sexo a partir de pessoas, coletividades políticas organizadas, arquivos e objetos ou mesmo locais implica reconhecer os agenciamentos e agendas que cada um desses interlocutores estabelece e negocia com pesquisadores e pesquisadoras.

Assim, o livro Práticas Sexuais: itinerários, possibilidades & limites de pesquisa está organizado em quatro blocos de textos. No primeiro deles, “O desejo do Limite”, reunimos três textos que problematizam a modernidade, os limites da pesquisa de campo e a pornografia heteronormativa e dissidente. Em Meditaciones en torno al saber enciclopédico, Marcelo Navarro Morales constrói, a partir do livro Enciclopedia del amor en los tiempos del porno (2014), de Josefina Ruiz-Tagle e Lucía Egaña Rojas, uma potente crítica ao projeto racionalista moderno, propondo a tactilidade como saída à visualidade totalizadora da modernidade e do humanismo. Em Marginalidad y producción de conocimiento, Fernando Ramírez Arcos, a partir de três diferentes espaços de pegação (um espaço de projeção de filmes pornográficos, uma sauna e um clube de sexo), reflete sobre o corpo do pesquisador no trabalho de campo, a deslegitimação desses espaços e sobre o sexo como produtor de conhecimento. Fechando esse tópico, Héctor Acuña, no texto-corpo ensaístico Mirando hacia el (Post)porno, discute a subversão de corpos e desejos potencializada pela pós-pornografia, que tem funcionado como arma visual poderosa frente à pornografia heterocentrada.

Na segunda parte, “Copos e(m) te(n)são”, reunimos cinco textos que a partir de diferentes atravessamentos interpelam, tensionam e erotizam, ou não, corpos e subjetividades. Em Do intenso entre os que bebem excessivamente, Paulo Rogers Ferreira problematiza, a partir do consumo excessivo do álcool, a associação recorrente de práticas sexuais dissidentes como símbolos de resistência, assim como analisa a amizade e as questões de gênero e sexualidade a partir do provisório, do imprevisível e do intenso do feeling du moment. Em seguida, no texto Conjugalidades dissidentes, Daniel Bruno de Melo Oliveira discute a prática do swing entre casais que se entendem como heterossexuais, repensando assim as noções de conjugalidade, sexualidade e gênero que atravessam o meio swinger. Em Práticas assexuais, Giórgia Neiva, a partir das relações entre identidade, movimento político e discursividade, articula diferentes concepções da assexualidade, assim como o lugar destas como produtoras de conhecimento. Victor Hugo de Souza Barreto, no seu texto Sexo Pig, etnografa diferentes grupos online e offline que se organizam em torno do amplo território do sexo pig. Por fim, Agustín Liarte Tiloca, em “Vermelho, branco ou azul?”, recria o espaço e a sociabilidade BDSM de Córdoba e nos guia pelas suas festas, apresentando e problematizando suas regras, conhecimentos eróticos e limites.

Em seguida, no conjunto dos textos do capítulo “Lugares impróprios”, apresentamos três artigos que discutem os limites dos encontros eróticos a partir dos espaços da prisão, do metrô e do banheiro público. Em A relação entre espaço, lugar e regramento da sexualidade, Hellen Virginia da Silva Alves, a partir da Penitenciária Estadual Feminina de Rondônia, busca compreender como as questões de gênero e sexualidade, além das afetivas e sexuais, são negociadas no espaço carcerário. Em Fronteras del Placer, José Octavio Hernández Sancén investiga os encontros eróticos entre homens - as metreras - no último vagón do metrô da Cidade do México. Por fim, Caio Jade, em seu ensaio corpo-poético Homem que é homem..., problematiza não só os encontros eróticos, mas a própria narrativa cisgênera sobre o banheirão.

No quarto e último conjunto de textos, “Sexo, risco e políticas de cuidado”, reunimos quatro textos que discutem questões relacionadas ao bareback e ao Hiv/Aids. Renan Kenji Sales Hayashi, em Hiv e suas metáforas, desdobrando o trabalho de Susan Sontag, examina discursos, materialidades e metáforas sobre Hiv/Aids no Brasil ao longo das últimas quatro décadas. Em Bareback, risco e prazer na perspectiva de usuários da PrEP ao Hiv, Vladimir Porfírio Bezerra e Vera Lucia Marques da Silva analisam como os usuários da Truvada, a partir das relações entre risco e prazer, organizam suas subjetividades e erotismos. Em seguida, Luiz Felipe Garcia de Oliveira, em Necropolítica e indectabilidade, investiga o pânico moral da AiD$ em torno do Paciente 0, assim como a construção do dispositivo da Aids, a luta contra a criminalização do HIV e a Aids como parte da necropolítica. Encerrando nosso livro, apresentamos o texto Breeding theory, de Gleiton Matheus Bonfante, que discute, a partir de um diálogo entre Goffman e Foucault, subjetividades e interações em um grupo de whatsapp de bareback, rastreando os discursos sobre o sujeito barebacker e sobre suas práticas sexuais

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